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segunda-feira, 29 de setembro de 2014

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Em estado de greve.


                Não desejo nestas linhas fazer a defesa ou não da greve que está prestes a estourar dia 23 de abril. Confesso que estou preocupado mais do que entusiasmado. Estarei aqui sendo um cronista, revisitando algumas memórias, muitas distorcidas pelo tempo. Tenho plena consciência dos limites deste resgate.
                Lembro bem quando ainda aluno, em 1988, houve uma greve. Eu estudava na Escola Estadual Alfredo Chaves. Naquela época, esta escola oferecia ensino de primeira até a quarta série do então chamado primeiro grau. Aquela greve ficou famosa no Paraná. Foi no governo do hoje senador Álvaro Dias, aquele mesmo que autorizou a cavalaria da Polícia Militar a cavalgar sobre os professores.
                Na ocasião minha mãe reclamava, afirmando coisas como "estes vagabundos destes professores que não querem trabalhar". Pobre coitada da minha mãe. O filho se tornou professor, o filho se tornou vagabundo.
                Não me recordo de como foi feita a reposição ou se houve ganhos para a categoria. Não fui também às fontes históricas para trazer a informação. O que sei é que os eventos daquele mês de agosto de 1988 tornaram-se fulcro para as lutas posteriores dos educadores que almejaram e almejam melhorias para a educação.
                Os anos 1990 foram os piores anos da educação no Estado do Paraná. A péssima gestão da SEED durante o mandato do governador Jaime Lerner (1995-2002) promoveu uma verdadeira quebra na educação. A média dos alunos foi reduzida para 50. A educação foi terceirizada. O Estado contratou os serviços de uma empresa de recursos humanos criada para suprir as necessidades de mão de obra do Estado. Esta empresa contratava pessoas sem a formação adequada para o exercício da docência. Foram oito anos de retrocesso. Para o leitor ter uma ideia, minha professora de química da segunda e terceira séria do então segundo grau era uma fisioterapeuta. No primeiro ano, o professor de química era agrônomo. Meu professor de física era engenheiro civil. Meu professor de matemática era administrador e sargento da aeronáutica. Nestes anos todos na educação, eu ainda escuto relato de acadêmicos de direito que lecionavam filosofia e história, acadêmicos de jornalismo lecionando inglês e português, entre outras bizarrices daquela que, para mim, foi a pior gestão da educação paranaense.
                Todo este colapso na política educacional veio à tona com a greve de 2000. A última greve realizada pelos professores das escolas públicas do Estado. Era um monte de crise econômica global e o modelo político adotado em praticamente todo o país nesta década estava sendo questionado. Os eleitores demandavam um Estado mais presente.
                Em 2000 eu era acadêmico do curso de história. Já havia decidido que meu foco seria a carreira docente, em escola pública. Eu percebia a crise, notava o colapso. Mas na época já era vivo em mim uma característica que só foi ficando mais forte com o tempo: a crença de que a educação é capaz de melhorar os indivíduos, materialmente, emocionalmente e, sobretudo, moralmente. Eu almejava fazer algo de positivo na vida de jovens e crianças, mesmo por que, em meio a toda aquela maluquice que eu vivi nos anos 1990, tive uns poucos bons professores que fizeram a diferença na minha vida. Muitas vezes minha decisão de ser educador e não pesquisador era alvo de chacota e às vezes até de represália por parte de alguns colegas. Mas só quem sabe o prazer que é ver os jovens fazendo bom uso de seus livres-arbítrios em função de nossas orientações entende perfeitamente o que estou falando, entende a razão pela qual me engajo.
                O governo de Roberto Requião (2003-2010) fez uma verdadeira revolução na educação. Sancionou a lei do Plano de Carreiras, deu aumento acima de perdas inflacionárias para os professores, implantou 20% de hora atividade mesmo antes de a lei nacional determinar a obrigatoriedade destas horas. Modernizou escolas, possibilitou a aquisição de equipamentos, promoveu a capacitação dos docentes, informatizou escolas e valorizou a carreira. Foi neste contexto que entrei na docência. Nunca vivi como professor a destruição dos anos 1980 e 1990. Vivi um momento bom e sei o quanto isso foi importante.
                Não vou entrar no mérito de comentar o governo atual. Prefiro me ater ao problema moral e pessoal que eu, como educador estou enfrentando diariamente quando penso sobre a greve futura.
                Tenho diversos receios. Temo que a greve não promova as melhorias necessárias, temo não receber meus vencimentos e me endividar; temo que a greve afete a formação dos jovens, adolescentes e crianças, estes que são o objeto da minha ação e engajamento.
                Decidi aderir ao movimento, mesmo sendo completamente desconfiado dos possíveis resultados. Decidi também ir à escola em todos os dias da greve e, se houver alunos, conversar com eles sobre os aspectos da legislação educacional, do funcionamento das instituições políticas, dos desafios da vida adulta, da minha opinião sobre a greve. Não acho correto que a greve promova o afastamento do professor em relação à sociedade. Mas ainda não sei se estas minhas ações poderão ser executadas. Estou ansioso, perdido, com medo. Prefiro imensamente que o governo negocie com o sindicato, com o movimento e apresente uma proposta, mesmo que gradativa, de implantação daquilo que está sendo reivindicado.
                As questões estão sendo postas, as escolas estão em ambiente de tensão. Todos nós estamos preocupados, mas estamos querendo melhorar a educação. Peço aos leitores que procurem conhecer mais sobre a pauta do movimento. Não é aumento de salário. Peço que leiam com atenção o material do link abaixo.
                Não consigo concluir o texto, tamanha é minha tensão, mas espero poder ter aproveitado bem o tempo que me foi dado para pensar sobre o tema. Desde já, obrigado.

André Carlos

sexta-feira, 4 de abril de 2014

terça-feira, 25 de março de 2014

Professor Marcos Napolitano (USP) fala sobre o Golpe de 1964 e a Ditadura Militar

Sou suspeito para falar deste professor da USP, sujeito que tive o prazer de conhecer e ser meu orientador na monografia que fiz para conclusão de curso em história, na UFPR. É de longe o professor de história que mais marcou minha formação e um intelectual que admiro e respeito muito. Vale a pena dar uma assistida no vídeo.

terça-feira, 11 de março de 2014

O Golpe Militar de 1964 - Folha de São Paulo

O jornal "A Folha de São Paulo" produziu uns aplicativos com informações sobre eventos e personalidades diretamente envolvidos no Golpe de 1964. É bem interessante. Fica a dica para acessar.
Abraços
http://arte.folha.uol.com.br/treinamento/2014/01/05/50-anos-golpe-64/

50 anos do Golpe Militar de 1964 e 100 anos da deflagração da Primeira Guerra Munidial

Hoje, dia 11/03/2014 o Jornal "A Gazeta do Povo", no seu caderno de educação publicou uma matéria acerca destas duas importantes datas históricas e também sobre a Copa do Mundo e as eleições. A matéria jornalística segue o padrão de formatação determinado pelo editor, é lógico. Com plena consciência disso, acabei criando um texto exageradamente grande para o jornal, acreditando que quanto mais informação e opinião eu pudesse apresentar, mais informações o editor da matéria teria para trabalhar. O padrão jornalístico é outro, compreensivo e justificável, porém, eu gostaria de também deixar a disposição dos leitores deste blog o texto na íntegra. Segue abaixo o link da matéria e o texto original. Neste primeiro post, coloco as respostas para as questões referentes ao Golpe Militar e a Primeira Guerra Mundial.

Como os professores podem usar o centenário do início da primeira guerra mundial e os cinquenta anos do golpe militar como instrumentos de aprendizagem para estudantes do ensino fundamental e médio?

          Antes de pensar em exemplo, nós temos é que pensar em um sentido para este passado. Tais temas são presentes nos planejamentos de história, mas por que razão estão lá? Pensemos a primeira experiência histórica  proposta: a Primeira Guerra em si mesma acaba sendo estudada como um punhado de informações sobre eventos políticos, econômicos e violentos. Estudá-la por mera curiosidade para decorar é efêmero. Esmiuçando suas origens, as tensões econômicas que a antecederam e todo nacionalismo do século XIX, que estimulava um ódio ao outro em função de sua nacionalidade, podemos sim retomar a temática da Primeira Guerra pensando até que ponto o nacionalismo é um valor positivo em si. Ou ainda, até que ponto um Estado Nacional pode por em risco sua população para atender interesses meramente econômicos de suas elites. Estas questões estão postas na atualidade e estavam postas no começo do século XX. Não é algo fechado. É importante retomar estas discussões na forma como elas se apresentam para nós hoje. Logicamente, os alunos tendem a ter curiosidade em visualizar imagens dos eventos, obter informações sobre tecnologias bélicas. Apresentar informações desta natureza estimula a curiosidade do estudante, mas a rigor, o sentido de estudar a história é dado no tempo presente, a partir de problemáticas do tempo presente e é para essa direção que o professor deveria caminhar.

          As questões de história do vestibular da UFPR dos últimos anos estão com um perfil novo, melhor. A cada vestibular abandona-se a informação sobre o passado esvaziado de sentido e coloca-se o aluno diante do desafio de pensar rupturas, continuidades, a partir da análise de diferentes conceitos historiográficos ao longo de temporalidades relativamente distantes. Ensinar história tendo isto como orientador da prática é um estímulo ao exercício da cidadania. Estudar a Primeira Guerra nesta perspectiva pode auxiliar a atingir este objetivo.

          No que diz respeito aos cinquenta anos do Golpe Militar, acredito que haja dificuldades enormes, fruto da relativa proximidade com o fato. Pessoalmente, sou um democrata e valorizo as instituições democráticas, mesmo as que estão desgastadas, precisando de renovação. Não posso pensar no Golpe sem deixar claro este ponto de partida. A geração mais nova não viveu a década de 1980, não viu a abertura do regime. Alguns só conhecem em função daquilo que ouvem de seus avós e pais.  Eu faço parte da primeira geração educada nas escolas públicas após o final do regime. Era uma época em que todo o modelo educacional militar estava sendo substituído por um novo, mais liberal do ponto de vista comportamental e econômico. Era também uma época de euforia, a despeito de toda crise econômica que existia no país. A palavra democracia acentuava paixões. Queria-se votar em diretores de escola, associação de bairros, governo do Estado, Presidência da República. Nos anos seguintes, o Regime Militar foi hostilizado intelectualmente pelas novas forças políticas que surgiam e pelas velhas que foram vencidas em 1964. Este momento de abertura inaugurou uma visão crítica de tudo o que se havia feito na Ditadura Militar, visão que é mantida até hoje, mas que já pode ser relativizada, mesmo que até eu não concorde com isso. A Ditadura deixou um legado material bom, (linhas de transmissão de energia, estradas, telecomunicações, usinas, utilizadas até hoje, entre outros), a despeito da crise econômica que impôs à nação, sobretudo aos mais pobres. Quem se lembra da inflação de 80% ao mês sabe bem do que falo. Ainda podemos citar projetos urbanísticos belos feitos nos anos da Ditadura, mas não pode ser esquecido o fato de que tais projetos dispersavam as famílias mais pobres, jogando-os nas periferias sem nenhum acesso aos serviços públicos básicos, o que ocorreu, por exemplo, com Curitiba nos anos 1980/1990.

          O fato é que hoje em dia imagina-se uma Ditadura que perseguia o povo, mas não se define bem o que era este “povo”, fruto de uma produção historiográfica marcadamente defensora da democracia. Esta Democracia brasileira atual tem matado mais negros, mestiços e pobres do que a Ditadura, com a conivência quase que absoluta da sociedade, colocando a Democracia sobre forte tensão. Em compensação, nos últimos anos foi possível ver uma maior inclusão das classes sociais menos abastadas em um padrão de vida melhor, com mais acesso a bens de consumo e serviços.

          Ver estes limites antagônicos, o bom e o mal na Ditadura e na Democracia, não nos autoriza a achar o passado melhor ou pior, faz sim com que nós pensemos nas contradições da nossa Democracia para efetivamente aperfeiçoa-la. Pessoalmente, creio que os cinquenta anos do Golpe Militar de 1964 devem ser revisitados, repensados por nós professores de história, mas não no sentido de hostilizarmos este passado, uma vez que não é sensato cobrar dele algo que ele não pôde e nem tinha o interesse de oferecer. Devemos sim estudar para nos distanciarmos mais ainda dele e construirmos uma Democracia mais sólida e justa. Este é uma proposta de olhar para nosso passado golpista e ditatorial. Em sala de aula é saudável que o professor traga esta perspectiva a tona e proponha ao aluno esta reflexão sobre estes últimos cinquenta anos de história do Brasil.

          Tanto para este tema como para o da Primeira Guerra, convém olhar para o passado enxergando no nosso presente um sentido novo ao olhar para trás. Para mim, pessoalmente, se faz necessário defender valores democráticos e pacifistas. Como a sala de aula tem esta natureza de ser um espaço com alunos de diversas origens, o diálogo, o debate é perfeito para atingir dois objetivos: a) conhecer estes eventos históricos; b) dar um sentido à eles, tendo no horizonte a construção de uma sociedade ainda mais justa e democrática.