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quinta-feira, 12 de julho de 2012

Texto sobre a paulistanidade

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-01881998000200007&script=sci_arttext


Rev. bras. Hist. vol. 18 n. 36 São Paulo  1998

http://dx.doi.org/10.1590/S0102-01881998000200007 

NON DUCOR, DUCO: A Ideologia da Paulistanidade e a Escola

Luis Fernando Cerri 
Universidade Federal de Ponta Grossa



Resumo
O artigo apresenta as idéias centrais da dissertação homô-nima, preocupada com a identificação da ideologia do regionalismo do Estado de São Paulo, a construção de deter-minadas imagens utilizando a história tradicional por parte dos intelectuais da oligarquia paulista, bem como a projeção dessas características histórico-tradicionais dessa ideologia através do tempo via ensino público. 
Palavras-chave: Regionalismo; História; Ideologia.

Abstract
The article presents the central ideas of the homonymous dissertation, preoccupied about the identification of the regionalist ideology of the São Paulo's state, the building of some images utilizing the tradicional history, by the paulista oligarchy's intelectuals, and also the projection of those historic-traditional characteristics of that ideology through the time by way of public teaching. 
Key words: Regionalism; History; Ideology.



O regionalismo é um problema com duas faces: em primeiro lugar, é uma decorrência do sentimento natural de etnocentrismo, a tendência do ser humano em encarar o seu grupo como o centro de todas as coisas, conforme aponta Dante Moreira Leite1. O outro lado da questão é o fato das regiões e das próprias nações serem construções historicamente datadas e socialmente determinadas. O surgimento do Estado Nacional é um exemplo claro disso, em que os interesses das classes dominantes do início da Idade Moderna criam as nações demarcando os seus limites e estabelecendo sua identidade. Essa identidade é generalizada socialmente numa complexa interação entre interesses dominantes, elementos da cultura popular, ideologia, história e educação, donde nasce o nacionalismo enquanto sentimento e projeto político sob vários olhares possíveis; um processo semelhante acontece, como foi possível constatar nessa pesquisa, com o regionalismo. Portanto, ao contrário do etnocentrismo, o sentimento nacional e o sentimento regional são construções, são artificialidades colocadas ao conjunto dos cidadãos, são identidades adaptadas artificialmente ao sentimento etnocêntrico, para o quê concorre de forma imprescindível a ação da instituição escolar2. O Estado e a classe que o hegemoniza têm um papel fundamental na constituição da idéia do "eu" e do "outro".
Foi levando em consideração essas questões que abordamos o regionalismo paulista e seu instrumento principal e inseparável de divulgação e perpetuação: o ensino de História. Evidentemente, compreendemos aqui o ensino de História como um amplo conjunto de práticas pedagógicas que utilizam a referência ao conjunto de conhecimentos construídos sobre o passado: não limitamos o campo do ensino de História às aulas dessa disciplina, mas consideramos que ele se realiza também na sala de aula no espaço das outras disciplinas e atividades (Literatura, Estudos Sociais, Canto Orfeônico, Educação Artística, atividades de pesquisa escolar, festas cívicas, monumentos, iconografia).
Tratamos o regionalismo paulista como ideologia da paulistanidade, em busca de um referencial teórico que permitisse captar a multiplicidade de aspectos do objeto. Ideologia, portanto, não aparece aqui como um conjunto de falsificações maquiavélicas ou como erro, mas sim como o "conjunto de representações (idéias e valores) e de normas ou regras (de conduta)"3, como concepção de mundo que aparece em todas as manifestações da vida intelectual e coletiva. Escolhemos abordar este objeto através deste conceito pela possibilidade que daí decorre de englobar a multiplicidade de formas por meio das quais o regionalismo manifesta-se. A ideologia da paulistanidade, como parcela da ideologia da classe dominante com características regionais, expressa-se desde a ciência - destacando aí a produção historiográfica paulista - até o folclore, passando pelo senso comum. Engloba o imaginário social e as mitologias, especialmente no que se refere às identidades "geográficas" (região e nação). Cumpre parte da função mais ampla do discurso ideológico, que é o de forjar outras identidades que não as de classe.
O termo "paulistanidade" surge, pelo que foi possível averiguar, na obra do historiador Alfredo Ellis Jr., intitulado A Nossa Guerra4. Ellis utiliza o termo ao adjetivar o espírito, o sentimento que toma conta dos paulistas e leva-os à guerra civil de 1932 depois dos ultrajes impostos pelo Governo Provisório e as interventorias impostas ao Estado. Ao qualificá-lo de ideologia, a intenção também é ultrapassar essa caracterização vaga de sentimento, simplesmente para enquadrá-lo como algo mais complexo. A paulistanidade é a ideologia produzida pela oligarquia paulista que consiste na criação de uma identidade de ordem regional, valorizando a condição de pertencente ao Estado (numa operação de homogeneização, nível das idéias, de seus habitantes), ao mesmo tempo em que institui uma série de valores e características como próprias da condição de paulista e, para sacramentar essa construção, oferece uma explicação para essa situação por meio do recurso à História Regional, que aponta o bandeirante como ancestral, civilizador, patriarca do paulista.

Paulistanidade em Perspectiva Histórica
Uma generalização da condição de paulista e uma avaliação favorável dessa condição são criações presentes já no século XVIII, quando Pedro Taques de Almeida escreve a Nobiliarquia Paulistana, visando ligar as famílias paulistanas aos nomes da nobreza. Outros cronistas também seguem essa preocupação, visando dar ao pequeno burgo de Piratininga uma identidade guerreira, destacada da maioria dos mortais. Provavelmente influenciado por esta leitura da história paulista, o viajante Auguste de Saint-Hilaire exclama que os paulistas são uma espécie de "raça de gigantes", e com esta frase faz escola, sendo repetido por muitos intelectuais e outros membros da elite de São Paulo.
Entretanto, a ideologia da paulistanidade só passará de um aglomerado de idéias fragmentadas para um sistema coerente quando, no Estado, um grupo social emergente passa a se dedicar à cultura cafeeira, no século XIX. Essa atividade moldará um novo perfil da classe dominante regional, ávida, além dos lucros, do poder estatal, da sedutora perspectiva de comandar não apenas a sua própria região, mas o país como um todo. A paulistanidade começa a se definir, nesse momento, a partir de duas funções básicas: como auto-afirmação/identificação de um grupo social em ascenção econômica e política, e como instrumento deste grupo para atingir seus objetivos de hegemonia sobre a sociedade e controle sobre as demais parcelas da classe dominante brasileira.
Dessa maneira, a história paulista é chamada de seu sono, convocada a servir de base para a ideologia. Uma das primeiras construções e identificações feita neste momento é das características da elite cafeicultora com as do bandeirante, com o qual procura-se estabelecer uma relação mais que histórica, uma relação genética:
Por meio século, poucos paulistas educados tinham qualquer dúvida de que sua psicologia coletiva fôra herdada dos bandeirantes, mas a maioria dos autores e apologistas enfatizavam os aspectos positivos: o bandeirante havia expandido a fronteira; havia posto sua energia a serviço de fins produtivos; havia percebido oportunidades e tirado bom proveito delas; havia apontado o caminho do futuro à nação brasileira. Cabia a seus descendentes modernos aceitar o destino de liderarem o país5.
Para a elite, o bandeirante vincula atemporalmente o paulista a uma vocação nacional, de construtor das amplas fronteiras do território a mantenedor da grandeza nacional. O mecanismo ideológico básico de generalização transmitirá essa noção, essas imagens e esse sentimento ao conjunto das classes sociais presentes em São Paulo, ainda que nem de longe possam estabelecer qualquer relação - mesmo que remota ou duvidosa, como é o caso da elite - de parentesco com os sertanistas coloniais. Trata-se, portanto, de uma dupla construção, do bandeirante e do paulista, estabelecendo um embricamento necessário entre cada uma das construções isoladamente.
No Partido Republicano Paulista, em luta pela derrocada do Império e pela presença paulista no governo do país, o discurso da paulistanidade tem uma presença marcante e desenvolve-se ao seu extremo em algumas alas, que propõem o separatismo de São Paulo para constituir o que Alberto Sales (irmão do futuro presidente Campos Sales) chama de A Pátria Paulista 6.
Com a proclamação da República e a federalização do poder, começam as primeiras iniciativas oficiais no Estado de São Paulo no sentido de incentivar a produção historiográfica e a divulgação que privilegiem a consolidação da paulistanidade. A fundação do Museu Paulista (também conhecido como Museu do Ipiranga) em 1895 e a publicação dos inventários das famílias paulistas dos séculos anteriores pelo governador Washington Luis, de 1920 a 1924, são exemplos claros dessa preocupação.
Neste mesmo período, os intelectuais orgânicos da elite paulista desenvolvem estudos historiográficos importantíssimos para a consolidação - pela comprovação documental - dos postulados da ideologia em questão. O exemplo mais significativo é o de Afonso d'Escragnolle Taunay, autor de uma vasta obra sobre os bandeirantes na qual se destaca a História Geral das Bandeiras Paulistas, cuja publicação leva quase quatro décadas. Taunay terá como contribuição fundamental a ligação da história nacional à história paulista, tornando a primeira dependente da segunda; isso será feito por meio de sua obra, de sua ação como diretor do Museu Paulista e da sua atividade didática como o primeiro ocupante da cadeira de História da Civilização Brasileira na Universidade de São Paulo.
Data também desse período a mistificação de que São Paulo é o Estado mais rico porque o seu povo é o que mais se dedica ao trabalho. O movimento verde-amarelo, expressão de um modernismo com posições mais conservadoras, será um dos movimentos intelectuais dedicado a propagar a seriedade, o trabalho, o pragmatismo, a responsabilidade, como características naturais do caráter regional paulista7.
Em meados da década de 20, entretanto, a produção intelectual da elite de São Paulo passa a ter uma nova preocupação: a de defender a supremacia de São Paulo perante as críticas de outras elites regionais, que desenvolvem um discurso contrário ao da paulistanidade, como reflexo de sua luta pela participação no poder central. Essa preocupação marca as obras dos autores paulistas, como Souza Lobo e Paulo Prado.
A década de 1930 e as seguintes, marcadas pelo fato novo das revoluções de 1930 e 1932, colocam a paulistanidade na defensiva, mas também são o período mais significativo para o estudo do objeto em questão: a propagação da ideologia da paulistanidade tendo a escola por meio. Para o estabelecimento desta ponte, procuramos selecionar dois intelectuais que constituíssem padrões da historiografia paulista, formadores de opinião e construtores do conteúdo, do saber histórico empregado na escola.
Entre tantos autores ligados à contínua formação da ideologia da paulistanidade, principalmente na década de 1930 (por exemplo, Paulo Duarte, Guilherme de Almeida e Menotti del Picchia), fizemos uma análise mais detida em dois deles, apenas: Aureliano Leite e Alfredo Ellis Jr., que apresentam algumas características comuns e que interessam ao tipo de preocupação sobre a qual nos debruçamos. A formação acadêmica de ambos (bem como da maior parte da elite paulista) é muito parecida, pois ambos passam pela Faculdade de Direito de São Paulo, o templo sagrado da ideologia e escola dos quadros da oligarquia de São Paulo. Em primeiro lugar, porque a tônica de sua obra intelectual está ligada ao estudo da História de São Paulo: podemos mesmo arriscar a afirmação de que são os dois mais significativos autores desse objeto específico que se seguem cronologicamente a Afonso de Taunay.
Dada essa condição, em segundo lugar os dois participam da Revolução Constitucionalista de 1932 na condição de combatentes efetivos. Creio que essa experiência dar-lhes-á um tom mais carregado para o seu regionalismo, marcando sua posição política e intelectual para o resto da vida, bem como fornecendo-lhes a autoridade de participantes briosos e viris da mais significativa atividade dos "bandeirantes" no século XX, exatamente o período de maior apelo e expressão da ideologia da paulistanidade neste século. Por sua atuação na política paulista, na ocupação de cargos eletivos e por nomeação, ambos podem ser considerados membros efetivos da elite política estadual, estando ligados cada um a um setor da oligarquia paulista: Alfredo Ellis Jr., seguindo a tradição paterna, é participante e convicto defensor do Partido Republicano Paulista, e Aureliano Leite é membro fundador e participante do Partido Democrático, além de participante da bancada federal do Partido Constitucionalista.
Finalmente, ambos serão membros do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, espaço de produção e divulgação de uma história tradicional, política, social, historiograficamente falando. Esse é um ponto crucial: sua tarefa, enquanto intelectuais/historiadores tradicionais de São Paulo, utilizando a terminologia braudeliana, é inserir a Revolução Constitucionalista de 1932, elemento do tempo curto, numa construção ideológica e historiográfica mais extensa, a tradição da paulistanidade. Esta é reivindicada como uma continuidade psicológica desde João Ramalho até Armando de Salles Oliveira e além.
Convencer desta continuidade histórica com a naturalidade inquestionável do dogma é o objetivo dessa construção historiográfica em sua projeção escolar. Mais do que elencar biografias, procuramos identificar tanto as características da ideologia que orienta suas produções intelectuais, quanto evidenciar que suas atividades profissionais constituem-se em espaços de atividade intelectual8. Não procuramos nestes historiadores os especialistas mais destacados no tema bandeirismo, mas sim os produtores das matrizes historiográficas da paulistanidade, da edificação de uma tradição9 que procura ligar as bandeiras com a cafeicultura, as indústrias, a revolução de 1932. É por este motivo que não selecionamos Cassiano Ricardo, por exemplo, pois ele busca nos bandeirantes prioritariamente uma expressão de brasilidade, e além de tudo não tem relações partidárias ou pessoais com a oligarquia regional.
Na análise desses autores, foi possível a constatação de alguns eixos da ideologia da paulistanidade atualizada por esses autores neste momento. Trata-se, por exemplo, de:
a- uma visão restrita da idéia de povo e de cidadão, englobando nesta condição apenas as pessoas alfabetizadas e educadas pelos instrumentos controlados pela oligarquia, ou seja, as pessoas enquadradas em seu projeto político-pedagógico;
b- uma idéia do paulista como defensor nato da Lei e da Ordem, ainda que estes termos apareçam de uma forma um tanto vaga e pouco criteriosa, também com a preocupação de ligar esta construção a eventos do passado;
c- uma elisão dos aspectos negativos da história dos personagens paulistas e uma sobrevalorização dos momentos em que os mesmos apresentam os comportamentos esperados (e esse é o mecanismo de construção da tradição histórica), ainda que Ellis se sinta forçado a manifestar os "maus momentos" pela sua ética cientificista;
d- um racismo mal disfarçado, ainda que tendendo a valorizar o índio para justificar que os mamelucos paulistas pudessem compor a tal "raça de gigantes";
e- enfim, mas não concluindo, a idéia de que 1932 é o momento máximo da epopéia dos paulistas no século XX, marco de heroísmo e luta pelo Direito e pela Liberdade, afirmando o Estado de São Paulo perante a nação. Aqui, a derrota converte-se, invariavelmente, em vitória.

Histórias Tradicionais e Histórias Oficiais
Julgamos fundamental discutir a diferença e o inter-relacionamento entre os conceitos de história oficial e história tradicional, a fim de melhor perceber o trânsito da ideologia entre as classes sociais, daí para o Estado, daí para a escola e de volta para as classes sociais.
A história oficial é um conjunto de saberes que estrutura o discurso do poder quando este se refere à sua situação no tempo, mas não é necessariamente produzida de forma direta por ele. O Estado recorre aos intelectuais organicamente ligados ao grupo que está no poder, e estes estabelecem parte significativa da argumentação que os governantes utilizarão para o debate político (ou o monólogo, nos regimes politicamente excludentes), bem como para os rituais cívicos exercidos pelos mesmos. Quero dizer, com isso, que a história oficial não é uma produção sistematizada unicamente pelo (e dentro do) Estado, mas geralmente produzida pelos intelectuais cuja visão compartilha da ótica do grupo no poder, e que a ele estão relacionados por afinidade política, geralmente expressa pela presença em algum posto da hierarquia governamental ou por financiamentos oficiais sob variados títulos.
O discurso oficial é o discurso que ganha a força da legitimidade, uma vez que é legitimado pelo poder que representa. O discurso oficial, portanto, é o discurso do poder. A história oficial é a história diretamente vinculada ao poder, legitimada e ao mesmo tempo legitimadora dele. Essa idéia corresponde, de uma forma geral, ao conceito de "história institucional", de Marc Ferro, referindo-se à história que legitima uma política, uma ideologia, um regime10. O estabelecimento de uma história oficial é uma necessidade básica, instintiva mesmo, de cada grupo social nas instituições que organiza; essa história é um dos elementos ideológicos com o papel de justificar e legitimar a existência da instituição perante a luta ideológica que se manifesta no conjunto da sociedade.
Próximo, mas não coincidente, temos o conceito de história tradicional. O termo evoca a idéia de uma continuidade temporal que se projeta, a partir do presente, em direção ao passado. Assim, possibilita entender e/ou justificar práticas e valores que sobrevivem contemporaneamente, e cuja origem é estabelecida na ponta inicial da linha da tradição.
Ao contrário da história oficial, que é uma história vinculada ao seu caráter de pertença à instituição, a história tradicional é uma história de classe, e portanto tem uma conotação primeiramente social. Ela é, então, um elemento de identificação de um determinado estrato da sociedade, e surge no seu confronto objetivo com outros setores, ligando-se ao próprio processo de formação e desenvolvimento da classe.
Assim, compreendido o termo, podemos somar a essa reflexão sobre a história tradicional uma outra contribuição sobre o seu caráter, através da referência ao conceito de intelectual tradicional, de Antonio Gramsci. O intelectual tradicional é aquele que tem sua origem marcada pela ligação com uma classe já desorganizada ou em vias de desaparecimento, motivo pelo qual, em algum tempo, tem a possibilidade de ser cooptado por algumas das classes efetivamente participantes da luta na sociedade. O próprio autor reconhece uma certa ambigüidade no conceito, na medida em que os intelectuais tradicionais muitas vezes já aparecem com ligações orgânicas com as "novas" classes, sem perder de vista idéias e valores da tradição na qual se formaram. Parece-nos uma forma adequada de se caracterizar a oligarquia paulista na década de 1930, desde que estejamos abertos ao conceito mais flexível de classe tal como é pensado por Thompson11 e Przeworski12, entre outros.
Para Hobsbawn e Ranger13, existem tradições genuínas e tradições que são inventadas; as primeiras ligam-se ao período em que "os velhos usos ainda se conservam", em que a classe que a institui está, de fato, ligada à origem que anuncia, numa longa continuidade temporal, e não encontra problemas para a sua situação na sociedade. Já a tradição inventada caracteriza-se pela ligação "forçada" que uma classe, em um momento em que precisa se afirmar, faz com um determinado passado, a fim de inculcar valores e normas de comportamento. Nesse sentido, a oligarquia cafeeira de São Paulo cria, no século XIX, a noção de que está ligada pelos valores, práticas, e até mesmo pela vinculação biológica aos bandeirantes dos séculos XVI, XVII e XVIII. O símbolo do bandeirante e suas características psicológicas serão daí por diante reverenciados e transmitidos para as novas gerações da elite, bem como propagandeados para o restante da população, procurando generalizar essa tradição como pertencente aos habitantes do Estado como um todo.
Partindo dessas considerações, preocupamo-nos em estabelecer as diferenças de discurso entre alguns personagens eminentes que ocuparam postos de direção no Estado. Basicamente, por meio dos discursos do interventor/governador de São Paulo entre 1933/1937, Armando de Salles Oliveira, e do Chefe do Governo Provisório/Presidente da República, Getúlio Vargas, pudemos pontuar a disparidade de leituras sobre a Revolução de 1932 (além de outros eventos ligados à problemática de centralização/federalização), que aparece regionalmente como um evento positivo e de brasilidade; entretanto, na leitura oficial do mandatário máximo da nação, 1932 aparece como um evento mesquinho, bairrista, sedicioso e fruto da propaganda ilusória de uma oligarquia em prejuízo da maioria dos filhos do Estado. Como veremos adiante, o discurso da paulistanidade que aparece na escola paulista, principalmente sobre 1932, é o esforço em afirmar a versão tradicional regional e, por todos os meios, negar a versão oficial de origem federal. Portanto, a dinâmica do embate entre história oficial e tradicional - e também entre a história regional e a versão nacional - dá as características do discurso pedagógico da paulistanidade, do discurso sobre o Estado que vai para o ambiente escolar, "formar os cidadãos".

Cotidiano Escolar: O Lugar Pedagógico da Ideologia
Para Agnes Heller, o cotidiano é uma situação que absolutamente todos os seres humanos vivem, e que absorve a todos de forma preponderante. É o momento em que a pessoa inteira é chamada a responder ao meio, com todas as suas capacidades, ao mesmo tempo determinando que todas elas se realizem com baixa intensidade, incapacitando o ser de se fixar em apenas um aspecto dos que lhe demandam a atenção. Destaca assim, que a vida cotidiana compõe-se de uma heterogeneidade de partes orgânicas que estabelecem entre si uma hierarquização que acompanha as atividades principais de cada tempo, classe e tipo de relacionamento entre o homem e a natureza14.
No nosso caso, é importante refletir sobre um momento específico do cotidiano na história deste nosso século: a escola. Somente na medida em que situarmos a escola para a sociedade atual é que poderemos traçar algumas características da sua cotidianidade. É a civilização ocidental que introduz uma instituição mantida pelo Estado ou por ele fiscalizada/orientada, com o objetivo de transmitir sistematicamente a bagagem de conhecimentos gerais acumulada pelas gerações anteriores. Essa instituição, inicialmente, será tanto condição para a cidadania liberal - entendida politicamente - quanto promessa de ascenção social para as famílias mais pobres. Posteriormente, com o desenvolvimento tecnológico, o acesso à escola passa a significar a única chance de uma colocação razoável no mercado de trabalho, e hoje é possível dizer que os contingentes excluídos da escola serão brevemente os excluídos da sociedade em processo de automatização e informatização. A escola, enfim, torna-se em nossa sociedade o passaporte para a cidadania entendida amplamente, como a condição de participação digna em todos os aspectos da vida social. É possível notar, portanto, que a centralidade da escola para a sociedade vem numa linha ascendente do século XIX para o século XX, concomitantemente ao processo de sua massificação.
A escola, enquanto instituição responsável pelo amadurecimento do homem no sentido de lhe fornecer grande parte das habilidades imprescindíveis para a vida cotidiana de sua camada social, é o elemento que organizará, além do cotidiano futuro do indivíduo, o seu próprio cotidiano enquanto criança e adolescente. Essa afirmação é válida para os contingentes em crescimento da população que passam pela escola, apesar de todos os problemas nacionais relativos à repetência e evasão nas camadas populares. Além de definir o dia-a-dia dos escolares, a instituição é efetivamente também responsável pelo processo de fragmentação do indivíduo, na definição de seus papéis sociais e no reforço das condições de manipulação social e alienação15. É interessante notar que os momentos que Heller denomina como "elevação ao humano genérico", ou seja, a realização ampla das capacidades integrais da pessoa como ser humano, expressos na ciência, na arte, nas atitudes revolucionárias, são registrados pelo conhecimento como avanço da humanidade, transformados em saber transmissível e assim passados mecanicamente para os escolares.
Uma primeira característica do cotidiano escolar, que envolve principalmente o professor e o aluno (sendo para o primeiro uma situação de trabalho e para o segundo um cotidiano preparador da cotidianidade adulta) seria então a "anulação" do humano-genérico pela sua conversão em informação. Na Química, na História, na Biologia, o cotidiano da escola resume-se em informar os rompimentos da cotidianidade por meio de procedimento mecânico e repetitivo; daí a concepção tradicional em educação de que a escola é o lugar da re-produção do conhecimento, enquanto a produção do mesmo ocorre na universidade, nos laboratórios e em outros lugares privilegiados da criação onde se encontra, segundo Lukács, o "homem inteiramente"16.
Uma outra característica da cotidianidade da escola é a maneira cíclica e repetitiva pela qual transmite os conhecimentos, tanto nos programas de cada série em si quanto, no caso da História, pelo calendário cívico escolar. É este o espaço privilegiado para que se generalizem as "tradições inventadas", já que estas constituem "um processo de formalização e ritualização, caracterizado por se referir ao passado, mesmo que apenas pela imposição da repetição"17.
Optamos, então, por abordar alguns aspectos centrais desse processo mecânico de transmissão que ocorre no cotidiano da escola tradicional, em nossa busca da ideologia da paulistanidade tal como se expressa na escola. Estudamos os materiais didáticos, entendidos amplamente como todos os recursos materiais que auxiliam o professor e a instituição como um todo na transmissão dos conhecimentos aos quais se propõem, tanto nas atividades de sala de aula quanto nas conhecidas pesquisas bibliográficas em que o aluno recorre a todo tipo de materiais e publicações disponíveis na biblioteca. Os recursos didáticos são, dessa maneira, organizadores da memória que subsistirá como recurso a ser utilizado na vida cotidiana do futuro adulto que passa pela instituição.
Em busca da manifestação concreta desses condicionadores do cotidiano escolar, analisamos os materiais didáticos disponíveis na biblioteca da Escola Estadual Cesário Coimbra e da Biblioteca Municipal de Araras, complementando tal estudo com livros didáticos encontrados no Centro de Memória da UNICAMP e no Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas. Evidentemente, essa base documental é limitada, principalmente no que tange à sua representatividade, que fica impossível de mensurar com clareza, na medida em que não estão disponíveis dados como as tiragens dos livros, seu número total de edições, a efetiva utilização desses materiais por professores e alunos e a maneira pela qual esses materiais foram usados (de forma crítica ou passiva, por exemplo).
O objetivo do estudo desses materiais teve pretensões menores, pelas características desse trabalho: identificar, apenas, a presença da ideologia da paulistanidade nos materiais, indicando sua grande potencialidade de se concretizar, bem como analisar os mecanismos prováveis que essa ideologia usa para se reproduzir, a partir das pistas dessa documentação.
Foi possível constatar que os temas, conteúdos e discursos relativos a São Paulo e os paulistas reproduzem de forma simplificada o jogo de interesses e os conflitos entre as pretensões de história regional e história nacional, principalmente no que se refere às abordagens sobre a Revolução Constitucionalista de 1932.
Não é fácil determinar se um manual reproduz ou não a ideologia da paulistanidade. É preciso reconhecer que os historiadores vinculados a essa visão de mundo particular conseguiram fazer um excelente trabalho ao inserir entre os "grandes fatos históricos do Brasil", utilizando desde a consistência teórica e argumentativa até o volume de pesquisas e publicações, o ciclo das bandeiras e a Revolução Constitucionalista de 1932. Podemos considerar esses dois temas como os dois pontos fulcrais da transmissão da paulistanidade no ensino de História. Portanto, podemos considerar que o próprio fato de 1932 lograr inserir-se nos livros de História e ser estudado, qualquer que seja a leitura, já é uma grande demonstração de sua capacidade de aglutinar a recordação por força de seus agentes ou entusiastas em destacá-lo. Evidentemente, as proporções do combate contribuem para essa presença do episódio no ensino, mas, isoladamente, não a explicam.
A oligarquia paulista e seus remanescentes também tiveram que travar uma luta surda para obter espaço para a sua revolução. Sendo um tema menos "quente", o bandeirismo conseguiu esse espaço de uma forma mais suave, com as contribuições fundamentais de Taunay, Ellis Jr., Aureliano Leite e, posteriormente, o estadonovista Cassiano Ricardo. A nacionalização do tema do bandeirante decorre da sua capacidade de simbolizar a integração nacional, pois surge com esse objetivo na virada do século, tornando-se naquele momento o símbolo do federalismo hegemônico, e depois um dos símbolos da nação em crescimento18. A Revolução Constitucionalista de 1932, entretanto, encontra resistências até hoje e não consegue obter uma leitura positiva na maior parte do país, com raras exceções (a história produzida pelo exército e a opinião do mineiro Juscelino Kubitschek, por exemplo, tendo este último, inclusive, usado a imagem de progresso e desenvolvimento atribuída ao bandeirante em sua campanha presidencial).
Na medida em que a ampla maioria dos manuais didáticos segue a regra positivista de apresentar os fatos objetivamente (os fatos falando "por si próprios", como expressões da verdade), não saltam à vista de imediato os posicionamentos ideológicos dos autores; procuramo-los, portanto, nas entrelinhas e nos indícios de cada obra, que são, freqüentemente, o espaço onde habitam os valores dominantes e as lições da ideologia.
Não apenas na escrita reside a transmissão dos valores e idéias da paulistanidade. Também as imagens têm essa função. O cartunista e ilustrador Belmonte (pseudônimo de Benedito Canero Bastos Barreto) é um dos maiores, senão o maior responsável pela transformação em representação gráfica da construção literária do bandeirante, feita pela historiografia tradicional paulista entre o fim do século XIX e o início do XX. Além disso, é um dos ilustradores mais importantes da Revolução de 1932, com cartazes nos quais procura também reproduzir a leitura da elite paulista sobre a guerra civil e suas motivações. Tornou-se indispensável procurar e analisar, em sua obra, os mesmos temas e conceitos trabalhados com as palavras dos materiais didáticos.
Abordamos, enfim, os materiais didáticos enquanto veículos de ideologia e enquanto presença marcante no cotidiano escolar, mediando ideologia e cotidiano, cumprindo esta função central da escola. Constatamos, via material didático, a presença histórica da ideologia da paulistanidade na instituição escolar, em seu relacionamento com a memória e o ensino de História. Essa presença histórica deve-se à ação dos intelectuais tradicionais, que realizam na escola a transmissão desta mensagem, entre tantas outras, para formar o cidadão ideal para o projeto político e social que advogam.

As Festas Cívicas da Paulistanidade
A República instituirá, para um povo acostumado às festas de memória religiosa, novos momentos cruciais da formação da identidade: em vez de Paixão, Páscoa, Natal, Advento, a data de formação da Nação, a proclamação da República, as revoluções redentoras. Novas festas de memória, agora laicas. Em vez dos santos, serão comemoradas as datas dos grandes heróis e mártires da nacionalidade. Daí o parentesco com os "dias santos" ou "dias de guarda" da Igreja, daí também o termo "rituais", bem como a paráfrase presente no título do artigo de Lúcia L. Oliveira, "As Festas que a República Manda Guardar"19.
Procuramos analisar, entretanto, não as festas nacionais, mas os rituais cívicos ligados à formação de uma identidade mais específica, a de paulista, com todas as suas atribuições ideológicas. Nesses rituais regionais, diferentemente dos rituais republicanos do século XIX, não há uma tentativa de substituir os rituais religiosos (o clero católico foi uma força importante na defesa dos ideais da paulistanidade em 1932, e na defesa de sua memória, posteriormente), mas sim somar-se a eles, no que surge uma concepção ideal do homem paulista, que deveria ser cívico e religioso.
Com o intuito de aprofundar as considerações anteriores, deve-se refletir a respeito dos momentos em que há uma ênfase especial e consciente sobre determinados aspectos ideológicos do dia-a-dia de uma escola estadual em São Paulo. Isso na medida em que, conforme Da Matta, o ritual não é uma suspensão do cotidiano, um momento especial e qualitativamente diferente, mas sim uma situação em que os elementos triviais da cotidianidade aparecem como símbolos20. Os rituais são parte indissociável da condição humana, e vão além das atividades sagradas e solenes, invadindo as atividades seculares. O ritual, integralmente ligado à ação cotidiana, constitui-se de gestos (ritmos evocativos de significados que formam atos simbólicos dinâmicos) e posturas (que se constituem em paradas simbólicas da ação)21.
A escola Cesário Coimbra, em Araras - SP, é tomada como uma amostra representativa da rede pública paulista. Isso foi feito levando em conta as condições de sua origem (criada em 1934, dentro da política de formação de quadros para a elite estadual, por parte do governo de Armando de Salles Oliveira, considerado como o momento em que os revolucionários de 32 retomam o poder), e a continuidade de suas relações com os centros da sociedade política (Secretaria da Educação e outras instituições estatais) que em alguns momentos zelam pela ideologia da paulistanidade.
A partir das experiências concretas desta instituição, partindo de entrevistas com alunos e educadores que vivenciaram esses rituais desde a fundação do Ginásio do Estado em Araras (sua primeira designação), bem como com os materiais indicados ou cedidos por esses personagens (poemas, discursos registrados, jograis, letras das canções) trabalhamos as descrições das festas, numa análise, novamente, da ideologia e de como ela é transmitida. Uma particularidade desses eventos rituais é a transmissão de um outro valor: o de morrer pela pátria, pelo ideal, que é particularmente abordado na festa do Soldado Constitucionalista, o 23 de maio, na qual se celebra o martírio de Martins, Miragaia, Draúsio e Camargo em confronto com os apoiadores do governo de Vargas.
Não podemos separar a existência humana da presença dos rituais. Estes, quando ligados às questões da memória política, ganham um papel de manutenção da identidade coletiva adequada ao consenso hegemônico da classe dominante. Foi neste sentido que analisamos os rituais cívicos da paulistanidade como expressões de uma tentativa de regionalizar a identidade a partir de uma perspectiva decadente, ou seja, a da oligarquia paulista. Classe diluída no espectro político e social após o Estado Novo, suas idéias permanecem e se manifestam nos rituais a partir da ação de intelectuais tradicionais ligados pessoalmente ao movimento armado de 1932 ou à sua infra-estrutura material e ideológica. Os rituais, espaço privilegiado na escola para a difusão da história oficial, são os momentos cruciais para que percebamos os mecanismos da ação da ideologia, que se utilizam tanto dos gestos físicos quanto da verbalização dos símbolos para proporcionar a consecução de seus objetivos.
No decorrer do tempo, a tendência é o esgotamento das fontes da comemoração: oficialmente incluídas no calendário cívico estadual, as festas cívicas da paulistanidade tendem cada vez mais a serem apenas um registro formal e indiferente, em vez de uma fervorosa exibição de memória e valores tradicionais. Isso porque os intelectuais tradicionais (desde os pesquisadores e professores universitários aos soldados, policiais, professores do ensino primário e médio) que de alguma forma viveram o 23 de Maio e o 09 de Julho vão desaparecendo, e as novas gerações não herdam essas preocupações de memória. Parece que as comemorações ocorrem porque as abaladas forças da memória tradicional sobre 32 conseguem se reunir em períodos mais esparsos, como os aniversários múltiplos de 05 ou de 10 anos da Revolução Constitucionalista de 1932. O último desses aniversários, que contou com uma grande mobilização, foi o cinqüentenário do movimento.
O ano de 1982 resgatou a comemoração cívica da Revolução Constitucionalista do marasmo em que ia caindo no correr dos anos 60 e 70, nos quais os professores que haviam participado de alguma forma do movimento e eram dele entusiastas começavam a rarear nas escolas. Concomitantemente, os novos professores relegavam essa memória a um segundo plano por duas ordens de motivos: em primeiro lugar, por uma postura já mais crítica, reservados em relação a 1932 pela dúvida de seus verdadeiros objetivos, e todo quilate de críticas dos adversários do movimento ou de sua memória tradicional. Em segundo lugar, o esquecimento era passivo, num reflexo mesmo da decadência da qualidade da formação dos professores tradicionalmente responsáveis por esse assunto, principalmente nos anos 70, em que os novos docentes responsáveis pela disciplina de História e pelas comemorações cívicas não eram especialistas, e sim polivalentes, pouco conhecendo o desenvolvimento do processo histórico em si, pouco sabendo sobre 1932 e pouco interessando-se em alardear a memória do movimento. Por força do calendário escolar, das determinações oficiais, as datas de 1932 não deixavam de ser comemoradas, mas movidas pelo mesmo impulso que fazia comemorar o Dia da Árvore, do Índio, da República.
Estudando a organização dos festejos de 1982, podemos identificar um movimento articulado no sentido de reverter essa situação, aproveitar o cinqüentenário para grifar e sublinhar o 23 de Maio, o 09 de Julho, a paulistanidade. O epicentro dessa agitação cívica regional está, como não poderia deixar de ser, nos representantes mais autorizados da propagação da história oficial e da manutenção da história tradicional. Em perfeita associação, a Secretaria de Estado da Educação em sua Comissão de Moral e Civismo, a Sociedade de Veteranos de 1932 - M.M.D.C. e o Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo promovem atividades destinadas a dirigir e a garantir a efetivação dos festejos do cinqüentenário do movimento constitucionalista.
Essa agitação, portanto, não ocorreu espontânea ou desorganizadamente, mas sim seguindo uma estrutura pré-determinada, tendo por raiz as entidades acima relacionadas, espalhando-se pelas regiões do Estado graças à ação das delegacias de ensino, chegando ao cotidiano dos estudantes por meio das escolas oficiais e ganhando espaço na sociedade como um todo pela atuação das comissões municipais de organização dos festejos, que envolveriam as escolas particulares, as entidades da sociedade civil e os poderes públicos municipais.
Também aqui julgamos extremamente importante abordar a vivência concreta de um processo mais amplo, e por esse motivo retornamos ao Cesário Coimbra, em Araras. Neste caso, o recorte teve que ser um pouco mais amplo que o colégio em si, visto que a orientação das comemorações solicitava um trabalho integrado de todas as instituições de ensino primário e médio, públicas ou particulares. Esta opção de trabalho permitiu vislumbrar algumas particularidades interessantes. Um exemplo é a concepção elitista da cidadania, presente na ideologia da paulistanidade pelos autores que trabalhamos: essa mesma concepção expressa-se no momento em que a Delegacia de Ensino propõe a formação de uma comissão organizadora dos festejos.
Mais do que simplesmente organizar os eventos, a comissão municipal mencionada acima, que surge por iniciativa da educação oficial, tinha o objetivo de envolver os vários segmentos organizados da sociedade civil e mesmo os representantes dos poderes estatais a nível municipal. Nem por isso as manifestações adviriam de uma estruturação democrática: a comissão foi composta por "cartas marcadas" no cenário das entidades conservadoras, nenhuma que representasse as camadas populares e os trabalhadores, reafirmando o caráter de elite e de cima para baixo que marcou todas as fases da preparação e realização dos festejos.
O papel das comemorações da Revolução Constitucionalista de 1932 foi agir sobre a formação dos alunos, tanto no sentido de inculcar a versão tradicional a respeito do movimento, no aspecto de formação das noções históricas, quanto com a perspectiva de formá-lo politicamente, cultuando os heróis do passado e da identidade paulista. Na verdade, a perspectiva política que se procura inserir no estudantado é conservadora, na medida em que o recurso ao passado não afeta as discussões sobre o presente. Os valores transmitidos são principalmente o "morrer pela pátria", a identidade regional como condição para a defesa do nacionalismo e a defesa da ordem, principalmente a ordem legal, tudo dentro de uma concepção limitada e excludente de democracia (a exemplo da concepção que tinham os membros da oligarquia paulista). Não existe uma extrapolação que levasse o aluno a comparar o Governo Provisório de Vargas com o regime militar, ambos governos de exceção, pois a conseqüência seria propor um combate semelhante dos paulistas contra o regime. Isto é impensável pelo comprometimento da própria fonte estatal das comemorações, o governo de São Paulo, comprometido com o regime ditatorial.
Como na maior parte das festas cívicas, a ausência de um diálogo com o presente permite o incensamento dos valores conservadores. O heroísmo da luta armada só é elogiado e estabelecido como ideal enquanto defenda tão somente mudanças dentro da ordem burguesa que já está dada, sendo visto como abominável quando questiona o sistema social como um todo. Portanto, se politicamente os destinos do Brasil estariam encaminhados, o que se propõe para o aluno é a reverência ao passado... e também à situação política do presente.
Concluindo, gostaríamos de apresentar, como contribuição, algumas pistas metodológicas para a ação concreta na escola com esses temas. A metodologia, para o trabalho com os cânones da história oficial e as datas nacionais e regionais, precisa ser dialógica, admitindo múltiplas mãos de direção neste diálogo. Se pensamos a formação do aluno-cidadão pelo ensino da História em termos de valores, o valor da tolerância e a abertura para o diálogo precisa ser um dos primeiros da lista.
Além disso, é interessante apontar algumas possibilidades e caminhos para discussão. Cremos que existe a necessidade antropofágica de deglutir o civismo como está colocado hoje, ligado à ideologia da nação e/ou da região, metabolizá-lo pela preocupação em desenvolver uma Educação Histórica, algo talvez mais amplo que ensino de História, no qual possamos procurar uma nova base que escape à história "territorial", ou seja, que organiza os interesses sociais em torno das geografias, e não das relações sociais. Precisamos de uma determinação em responder que não devemos amor ao chão em que nascemos ou vivemos, na medida em que este nos daria de comer: quem me dá de comer é o meu relacionamento social, a minha interação com as pessoas que estão comigo numa comunidade que só permanece porque estabeleceu vínculos com diversas outras comunidades, às quais, indiretamente, pertenço. A identidade de "paulista" é abstrata, da mesma forma que a identidade de "brasileiro" é abstrata. "Existe é homem humano", já dizia o Riobaldo de Guimarães Rosa em Grande Sertão: Veredas, como Dante Moreira Leite cita, muito brilhantemente.
O esforço em pensar a história como propiciadora da consciência de cidadania (no forte sentido que essa palavra tem adquirido no Brasil nos últimos anos, ganhando uma conotação mais social, além da política, que já existia) já é um passo importante nessa direção. O que importa, mais do que novas técnicas, novos conteúdos, é o trabalho de todos esses "novos" a partir de novos princípios, novos pontos de partida para a discussão: em vez do ponto de partida geográfico/regional/nacional (espacial), um ponto de partida social. Como um possível ponto humanista de chegada, a compreensão da responsabilidade pessoal com os demais e com o ambiente em que todos vivem, a vida como valor máximo, e aí a compreensão clara da defesa dos direitos humanos, a democracia como valor universal, o pacifismo. Ensinar a pensar e a agir na história, autonomizar para possibilitar a convivência em melhores bases.

Notas
1 LEITE, Dante Moreira Leite. O Caráter Nacional Brasileiro - História de uma Ideologia. São Paulo, Pioneira, 1983, p. 07.         [ Links ]
2 Idem, p. 09.
3 CHAUÍ, M. O que é Ideologia. São Paulo, Brasiliense, 1981, p. 113.         [ Links ]
4 ELLIS JR., A. A Nossa Guerra. São Paulo, Piratininga, 1933.         [ Links ]
5 LOVE, J. "O Poder dos Estados: Análise Regional". In FAUSTO, Bóris. História Geral da Civilização Brasileira. São Paulo, DIFEL, Tomo III, 1º vol, 1975, p. 55.         [ Links ]
6 SALES, J. A. A Pátria Paulista. Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1983.         [ Links ]
7 VELLOSO, M. P. "A Brasilidade Verde-Amarela: nacionalismo e regionalismo paulista". In Estudos Históricos. vol. 06, nº 11, jan./jun. 1993.         [ Links ]
8 GRAMSCI, A. Os Intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1991, p. 07.         [ Links ]
9 ABUD, K. M. O Sangue Intimorato e as Nobilíssimas Tradições. Tese de Doutoramento, São Paulo, FFLCH-USP, 1985, p. 145.         [ Links ]
10 FERRO, M. A História Vigiada. São Paulo, Martins Fontes, 1989, p. 11.         [ Links ]
11 THOMPSON, E. P. A Miséria da Teoria ou Um Planetário de Erros. Rio de Janeiro, Zahar, 1981.         [ Links ]
12 PRZEWORSKI, A. Capitalismo Social - Democracia. São Paulo, Companhia das Letras, 1989.         [ Links ]
13 HOBSBAWN, E, J. & RANGER, T. (org.). A Invenção das Tradições. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1984.         [ Links ]
14 HELLER, A. O Cotidiano e a História. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1972.         [ Links ]
15 Idem, p. 22.
16 Idem, p. 29.
17 Idem, p. 12.
18 Idem, p. 132.
19 OLIVEIRA, L. L. "As Festas que a República Manda Guardar". In Estudos Históricos. vol. 02, nº 04, jul./dez. 1989.         [ Links ]
20 DA MATTA, R. Carnavais, Malandros e Heróis. Rio de Janeiro, Guanabara, 1990, p. 63.         [ Links ]
21 McLAREN, P. Rituais na Escola: em direção a uma economia política de símbolos e gestos na educação.Petrópolis, Vozes, 1992.
 

segunda-feira, 4 de junho de 2012

orientações para a processual

Manifestações culturais afro-americanas: O negro na Música e/ou literatura nos Estados Unidos e no Brasil
Professores André, Christian, Cristiane e Gezoel

Conteúdo e critério específico de história:

Articular a marginalização das manifestações culturais afro-americanas com seus respectivos contextos históricas formadores. Exemplos:
* Guerra Civil Americana – movimentos musicais e religiosos nos Estados do sul dos Estados Unidos após a guerra civil (Blues, Jazz, Spirituals);
* luta pelos direitos civis (anos 1960) – O Contexto de Martin Luther King, movimento Black Power (Black music);
* Abolição gradativa da escravidão (Brasil) – música e religiosidade nas senzalas, a origem das religiões afro-brasileiras.
* Marginalização da população urbana afrodescendente (transição para a República). Samba e chorinho nas grandes cidades (Rio de Janeiro e São Paulo)

Sugestões de sites

Conteúdo e critério específico de sociologia:
* Lutas pelos direitos civis, políticos e sociais das populações afrodescendentes;
* reconhecimento da cidadania;
* movimentos sociais afirmativos;
* políticas públicas para população afrodescendente;
* Cultura e resistência – heranças das comunidades quilombolas.

Conteúdo e critério específico de LP:
* A representação do negro na Literatura Brasileira, na obra: “O Bom Crioulo” e outros (Anjo Negro, O Mulato, Sítio do Pica-Pau-Amarelo, Macunaíma).
* Elementos africanos em ritmos e letras de músicas (“Orixás, berimbau...”).
* Contribuição de palavras africanas na formação do léxico do Português brasileiro.
* Levantamento de compositores literários (Cruz e Souza, Machado de Assis e outros) e músicos negros (Baden Powel, Seu Jorge, Djavan e outros) e a receptividade das obras pelo público na época da produção e posterior a elas.


Avaliação:

* Trabalho escrito – 1,0 pontos
Deve conter:
a) Capa
b) Índice
c) Desenvolvimento
d) Conclusão
e) Bibliografia
* Cada item valendo 0.2

* Material de apoio – 1.0 pontos
Opções para elaboração do material de apoio:
a) aula em Power point;
b) material áudio/visual;
c) Cartazes e folders;

Sugestão de Temas e personalidades a serem pesquisados:

 01) Chorinho:
* história do gênero musical
* locais onde se tocava
* Compositores negros famosos
* Características do gênero
Personalidade: Pixinguinha

02) Jazz

* história do gênero musical
* locais onde se tocava
* Compositores negros famosos
Personalidades: (sugestões) Ella Fitzgerald, Louis Armstrong, Elza Soares

03) Blues
* história do gênero musical
* locais onde se tocava
* Compositores negros famosos
Personalidades: B.B. King, Buddy Guy

04) Capoeira
História da luta e da dança.
Local – espaço social onde a dança se realizava

05) Hip-hop/Rap
* história do gênero musical
* O espaço social da periferia e a condição de marginalização da música e do negro
* Compositores negros famosos
* temas abordados na música

06) Samba/lundu e maxixe

* história do gênero musical
* locais onde se tocava
* Compositores negros famosos
07) Música e religiosidade afro-brasileira (cantigas de terreiro)
* Discriminação da religiosidade africana no Brasil Império
* História da umbanda, candomblé e outras religiões afro-brasileiras
* A música no terreiro.
08) As divas negras (Cantoras)
09) Cantores Negros brasileiros – Cultura e contra-cultura.
 10) Além das sugestões aqui apresentadas, cada turma obrigatoriamente deverá ter uma equipe trabalhando com literatura.

Datas previstas para elaboração e apresentação na semana de 11/06 até 15/06, utilizando uma aula de português e uma de sociologia.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Música negra, cultura e identidade numa ótica transnacional


Eu andava com saudades da pesquisa acadêmica, decidi reler uns textos que escrevi, rascunhos, enfim, e resgatei este pequeno texto. Tem um aspecto mais ensaístico, e o fiz para matar saudades da época em que eu não me prendia a livros didáticos e apostilas para produzir meus textos. 



Música negra, identidade e cultura musical numa ótica transnacional.  

                                                                                                        André Carlos Moreira Mendes 

            A rigor, pensar sobre a música no Brasil faz muito tempo que é pensar a partir de duas vertentes, ambas extremamente nacionalistas. A primeira destaca as manifestações da cultura popular, valoriza uma idéia de que o popular é a essência, o elemento que identifica a Nação. Isso remete a noção Gramsciana de nacional-popular. Nessa conformação, as músicas étnicas, urbanas ou rurais e toda a diversidade da cultura musical presente no Brasil autenticariam a brasilidade. É esse popular que é base da cultura nacional.
            A outra vertente entende que o que é nacional está relacionado a um ritual simbólico de antropofagia, em que todo o elemento cultural externo é aproveitado pelo que já existe internamente. Simbolicamente essa antropofagia está associada com a prática antropofágica da cultura indígena Tupi. Esse elemento externo é apropriado pelo interno e a partir do contato cultural se é criado algo novo. É esse algo novo que é o nacional. Daí  advém a máxima modernista de que a cultura brasileira é Antropofágica.
            É destaque dentro do pensamento, da produção sociológica, jornalística e historiográfica sobre música brasileira a questão da música negra. Em geral, mesmo quando se diverge sobre a origem dos elementos musicais, o Samba é considerado o símbolo da brasilidade, o gênero matriz da música brasileira, originalmente negro.
            Curiosamente, brancos atribuíram à esse gênero musical a ideia de que ele é o ícone da brasilidade. Haveria uma preocupação em se dar um espaço para a cultura negra, uma busca, um resgate, um gesto solidário para com os negros, dada a trágica experiência escravista brasileira? Penso que não.
            A busca e a caracterização dessa música como nacional não está relacionada a uma posição solidária, com vistas a equiparar, a promover uma igualdade entre brancos e negros. No caso brasileiro, a preocupação é buscar um gênero musical que possa consolidar uma música nacional, uma cultura nacional. Essa busca se dá basicamente por dois motivos.
Durante a década de 1930, com a ditadura Varguista, há uma preocupação em integrar o território culturalmente. Pela primeira vez há uma preocupação maior com o ensino de língua portuguesa. O Estado procura difundir os meios de comunicação no intuito de integrar a nação.
            É desse período a oficialização do carnaval como a grande festa popular do Brasil. Carnaval passa a se tornar sinônimo de samba. Entretanto, havia um pequeno problema. O samba era indisciplinado demais para as concepções do Estado. Pensemos que é nessa época que está ocorrendo uma transformação radical no Brasil. Apesar de a abolição da escravidão ter sido no século XIX, é nas décadas de 1930 e 1940 que passa a haver um maior intento de modernizar o Brasil. As relações de trabalho tipicamente capitalistas passam a ser valorizadas.
            O samba, até então, tinha uma rebeldia, uma reação negativa ao mundo do trabalho. É dessa época a caracterização da figura do “malandro”. Como gênero musical popular, o samba auxiliaria o Estado na integração nacional, mas para isso, precisava se civilizar, precisava entrar em comunhão com as ideias novas, de modernidade. O grande samba que nos mostra essa busca por uma nação, civilizada, perfeita e adequada aos ideais das novas relações de trabalho é “Aquarela do Brasil”, de Ary Barroso (um compositor branco).
            Se essa música negra foi aceita pela elite brasileira (com ideais políticos de direita), como gênero sintetizador da brasilidade, os intelectuais da esquerda também assim a consideraram, mas com outros propósitos.
            Não dá para pensar essa apropriação que a esquerda faz do samba, sem antes pensarmos a questão da Revolução. O ideário comunista da revolução ganha outra perspectiva a partir do pensamento de Gamsci. Para esse autor, a revolução socialista mundial ocorreria com o desenvolvimento de socialismos em cada país, ou seja, cada nação deveria promover a sua própria revolução. Para tal empreitada, o intelectual revolucionário deveria saber agir na formação de uma consciência revolucionária na população. Para tanto, deveria se apropriar de uma linguagem popular e nacional. É com vistas nisso que a esquerda brasileira passa a enxergar o samba, como um meio que pudesse propagar as contradições do capitalismo e divulgar/promover um ideal revolucionário. A figura do malandro é vista com bons olhos, pois ela ia contra a figura do trabalhador disciplinado, que o Estado tentava passar, no intuito de civilizar o samba. Essa figura é valorizada devido ao fato que ela ia contra as relações de trabalho típicas da sociedade industrial capitalística que se formava no Brasil das décadas de 30 e 40. Passa-se a usar a figura do “malandro” com a intenção de formar consciência de classe.
            Percebemos que no período de institucionalização do samba como a música que demonstra a brasilidade, não há uma ação de uma intelectualidade negra, de um movimento negro. Essa é uma realidade que viria a se manifestar anos mais tarde.
            O caso norte americano é diferente. Desde muito cedo, a perspectiva essencialista, a busca por um negro em essência, utilizou-se da música produzida pelos negros norte-americanos como um fator de identificação, de busca por uma identidade negra. Desde muito cedo, a intelectualidade negra se engajou em buscar o seu espaço, a sua cidadania, sua liberdade.
            O caso americano também tem outra característica importante. O racismo presente nos Estados Unidos sempre foi mais declarado que o brasileiro. Se aqui no Brasil o samba negro era incorporado por intelectuais brancos, com orientações políticas diferentes, os americanos brancos tendiam a se afastar da música negra, por ela ser sinônimo de atraso cultural.
 Para tanto, basta observarmos as principais músicas populares americanas. A música do branco americano é o folk, o country. Músicas com compasso binário, acelerada, festiva. A música negra, sãos os spirituals e o blues. E os espaços sociais de cada um desses estilos populares é determinado e específico. O branco não vai ao lugar social da música do negro e vice-versa.[1]
Sendo assim, a trajetória histórica da música negra americana, segundo esses intelectuais remetem diretamente a um passado africano. Mesmo entre alguns brasileiros essa interpretação é hegemônica. Roberto Muggiati[2] ao falar sobre o rock, nos diz que o movimento da contracultura americano, da década de 1960 procurava falar em nome da cultura negra; tentava conceder ao negro um espaço para que ele pudesse expor o seu lamento por uma trajetória segregacionista, desigual e racista. Para esse autor brasileiro, a origem do rock é negra. O grito do rock é a releitura, a aproximação de um passado, onde surge o grito melancólico e triste do escravo negro que desembarca na América. A rebeldia do rock é a própria rebeldia do escravo negro.
A partir da década de 1950, com a expansão econômica e cultural americana, a música estadunidense se dissemina sobre o mundo. Essa disseminação cultural/musical americana muitas vezes foi interpretada como um imperialismo cultural (basta observarmos o fenômeno da Jovem Guarda, uma releitura do rock americano, feita no Brasil. Esse movimento foi diversas vezes caracterizado de alienado e conivente com o imperialismo americano).
Para quem via de fora, a música americana era entendida como elemento da identidade nacional dos Estados Unidos. Apesar da tendência que foi dominante durante décadas em se pensar o rock norte-americano como parte de uma política imperialista,  a divulgação mundial do rock, do blues e do jazz não precisam necessariamente ser interpretadas como  iniciativa maniqueísta e impositiva de se apresentar à outros países um ideal de cultura. O grande diferencial da música como um todo, no século XX em comparação com outros momentos da história, está no fato de que no século passado ela ganha uma característica inédita, que é a racionalização da produção, que na verdade passa a acompanhar toda a esfera de produção cultural. A novidade é a indústria cultural.
Nesse caso, a veiculação mundial do rock e de outras vertentes da música oriunda das comunidades negras não é necessariamente a imposição de uma identidade nacional sobre outras, muito menos da identidade negra sobre a branca. Se fosse este o caso, todos os americanos dos anos 1960 e 1970 cantariam como Tom Jobim em função da projeção do grande compositor brasileiro nas terras do Tio Sam e os contemporâneos vestir-se-iam tal como Carlinhos Brow, que recentemente ganhou projeção mundial por ser um dos candidatos ao Oscar de melhor trilha sonora. Estamos falando de artistas que criaram padrões estéticos musicais transnacionais. Não é a venda de um produto que representa uma identidade nacional, embora este elemento esteja presente. A título de exemplo, ninguém no Brasil passou a se comportar como um inglês nos anos 1960 só por que os Beatles foram um fenômeno musical global. As mulheres americanas não colocaram abacaxis na cabeça por que Carmem Miranda fez uma carreira de grande sucesso nos Estados Unidos.
E apesar de no momento atual observamos um crescimento forte dos movimentos afirmativos que almejam dar para as culturas negras afro americanas o espaço que lhes foi negado no passado, há também observações interessantes acerca das bases que fundamentam tais políticas afirmativas, uma das mais interessantes está em Paul Gilroy[3].
Este autor critica algumas das principais tendências interpretativas da cultura negra, principalmente as perspectivas essencialista e a pluralista. Para ele, a produção da intelectualidade negra engajada, investigando a cultura negra, ainda se baseia muito em conceitos europeus da modernidade, conceitos originados do iluminismo. A produção da intelectualidade negra se engaja em adquirir, de buscar, de fornecer aos negros noções como as de liberdade, de cidadania, de autonomia social e política. Podemos perceber que o autor não se posiciona contra estas buscas, entretanto, ele critica as bases da argumentação que exige esse espaço para o negro.
Para ele, essa busca dos negros ainda se baseiam em conceitos perniciosos como o de absolutismo étnico e o de nacionalidade. Perniciosos na medida em que atualmente as questões políticas e econômicas transcendem as fronteiras nacionais. O absolutismo étnico é criticado, pois essa perspectiva desconsidera a constante troca de informações entre culturas em movimento. Esse etnocentrismo busca uma essência, uma homogeneidade, uma cultura pura, que, a rigor não existe dada as novas concepções de cultura.
É comum se observar que o discurso negro sobre sua música se posiciona de tal forma a afirmar que essa produção musical é o elemento integrador de sua identidade. Em se tendo essa identidade étnica se reivindica uma ideia de nacionalidade para essa cultura.
Isso aconteceu com o blues, aconteceu com o jazz, aconteceu com o rock e acontece com o Rap (hip hop). Quando esses gêneros musicais foram apropriados pela indústria cultural como mercadorias, eles passaram a ser interpretados por artistas que não eram negros, causando uma revolta da população negra, que se sentia usurpada de sua cultura, de sua identidade, consequentemente, atrapalhava a sua reivindicação de nacionalidade. Muggiati fala que quando os brancos começam a cantar rock como os negros escravos, gritando, é em prol de uma iniciativa de incorporar a causa negra como a sua própria causa.
Talvez a grande crítica que se possa fazer com relação a estes pontos de vista, sobre a identidade do rock, a identidade do samba, a identidade da música negra, se apoia muito na argumentação de Gilroy e pode ser usados também alguns pressupostos teóricos acerca da indústria cultural.
A música negra não deveria representar identidades nacionais ou ainda perspectivas etnocêntricas, sob o risco de que a reivindicação anacrônica de nacionalidade pode gerar posturas e pensamentos raciais e fascistas. Um grande pensador da Escola de Frankfurt afirmava que a história deve, entre tantos atributos, dar voz àqueles movimentos sociais e culturais que foram silenciados pelos vencedores e muito desta filosofia da história se observa nos movimentos afirmativos que buscam valorizar o status da arte afro-americana. Tal cultura não precisa ser valorizada pela repressão que teve no passado, por que isso seria reduzir sua especificidade estética. Ela passaria a ter valor apenas por ter sido reprimida. A música e a religiosidade negra possuem riquezas próprias, não precisam da piedade da História para ganhar legitimidade de exposição e manifestação. Outra questão interessante a se pensar é sobre a égide do transnacional.
A música negra tem origem no contato cultural existente no atlântico negro durante a diáspora atlântica. Ela então, não se prende a uma ideia de nacionalidade, como é pensada pela intelectualidade negra. Ela é multicultural e transnacional. Também não podemos pensar que a veiculação da música americana unicamente como uma propagação imperialista de uma cultura. Primeiro por que se observarmos a origem do rock, ele é o contato entre um elemento negro e branco (blues e country). Ou seja, é o contato entre culturas que se dispersaram pelo mundo do atlântico negro, mais precisamente, não se prende a um território nacional, a uma ideia de nação. Segundo, a dinâmica da produção cultural, da indústria cultural,  esta se interessa em vender um produto e não em impor uma cultura. As gravadoras estrangeiras que se instalaram no Brasil nos anos 1970 possuíam nos seus casts uma maioria de artistas brasileiros.[4] Se ela impõe uma cultura, impõe a própria cultura capitalista global e não necessariamente identidades nacionais. Seria um absurdo pressupor que Ivete Sangalo em Nova York seria uma inversão no imperialismo cultural, ou que o sucesso global de artistas como Ramstein (Alemanha) e Lordi (Finlândia) vai nos fazer ser menos brasileiros. A racionalização da produção faz com que as empresas multinacionais da produção cultural (companhias cinematográficas, editoras, gravadoras, entre outras) comercializem o que elas já têm pronto em seus países de origem, simplesmente por que já é um produto acabado, não precisa ser produzido novamente em outro território Não gera custos novos, exceto o de distribuição. O que está no horizonte então é o lucro, e não a imposição cultural nacional.
São estas as sugestões para que a partir das noções apresentadas por Gilroy, de diáspora e da transnacionalidade do Atlântico Negro, possam abrir margens para uma nova leitura, uma nova história da música negra, não desconsiderando o avanço do capitalismo global.



Referências:

ALMEIDA, Cláudio, Cultura e sociedade no Brasil: 1940-1968 :  São Paulo, SP : Atual, 1996;
DIAS, M. T. Os donos da voz: Indústria fonográfica brasileira e mundialização da cultura :  SP,  Bomtempo, 2000
GILROY, Paul. O atlântico negro : Modernidade e dupla consciência : Rio de Janeiro, Ed. 34, 2001;
MUGGIATI, Roberto. Rock: O Grito e o Mito – A  música pop como forma de comunicação e contracultura :  Rio de Janeiro, Vozes, 1983
HOBSBAWM, Eric. Era dos Extremos: O breve Século XX (1914-1991) : Cia. Das Letras, São Paulo, 1999;
HOBSBAWM, Eric História social do Jazz : Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1990



[1] Algo semelhante ocorria no Brasil no final do século XIX, quando ritmos europeus como a marcha e a polca invadem o mundo musical dos brancos, enquanto nos lugares reservados aos negros estavam acontecendo as rodas de choro. Exemplo clássico é a trajetória musical de Chiquinha Gonzaga, pianista branca que freqüentava rodas de choro, indo contra toda a postura segregacionista, racial da época.
[2] MUGGIATI, R. Rock: O Grito e o Mito – A  música pop como forma de comunicação e contracultura :  Rio de Janeiro, Vozes, 1983
[3] GILROY, Paul. O atlântico negro : Modernidade e dupla consciência : Rio de Janeiro, Ed. 34, 2001
[4] DIAS, M. T. Os donos da voz: Indústria fonográfica brasileira e mundialização da cultura :  SP,  Bomtempo, 2000, p. 55

terça-feira, 13 de março de 2012

Dossiê

Muitos alunos vieram perguntar para mim como montar o dossiê e, por mais que já tenha feito várias explicações acerca disso, vou colocar um roteiro para vocês aqui no Blog.

Um dia vocês vão fazer pesquisas numa faculdade, numa universidade e lá a coisa será bem diferente. Algumas coisas serão extremamente importantes, entre elas:

Objeto de pesquisa
Hipótese
Fundamentação
Resultados.

A ideia de fazer o dossiê com os personagens da Revolução Francesa vem a ser um pequeno preparatório para uma pesquisa mais séria. Primeiramente, vocês deverão selecionar o OBJETO de pesquisa, que no nosso caso, é um dos personagens listados na publicação anterior.
Depois disso vocês deverão conhecer seu objeto, ou seja, vão estudar a vida dele, detalhes, ações, ideias que defendeu, aliados políticos, posturas, virtudes, defeitos, etc.
Considerando o contexto da Revolução, vocês deverão fazer uma ACUSAÇÃO à este personagem, e basta lembrarmos das ações que eles tomaram durante o processo revolucionário que não faltarão motivos para acusá-los de diversas coisas, desde gasto exagerado de verba pública até atitudes radicais e desumanas. Ao acusar ou quem sabe defender este personagem, vocês estarão levantando uma HIPÓTESE, ou seja, ao acusar o Marat de incitar a violência, vocês estarão criando uma informação que precisara ser provada. E ai que vai entrar a parte da FUNDAMENTAÇÃO das acusações. Será necessário levantar informações que possam comprovar que seu personagem realmente faz jus ao que você acusa/defende. No caso do nosso exemplo, acusar Marat, algumas poucas frases dele incitando a população contra a aristocracia e o clero francês já bastariam para provar que ele realmente incitou a violência.
Na conclusão você descreverá os resultados obtidos pela sua pesquisa, em concordância com suas acusações e fundamentações. Nada de ficar escrevendo coisas como "eu fiz este trabalho e achei legal descobrir que o Marat era revolucionário"
O ideal neste estagio é fazer um texto curto, mostrando os resultados, as etapas da pesquisa, enfim. E obviamente, no final, suas referências bibliográficas.
Bem, espero que estas informações tenham sido úteis.
Abraços

terça-feira, 6 de março de 2012

Personagens da Revolução Francesa - para a elaboração do Dossiê

                Como eu havia prometido, vai abaixo uma lista de personalidades importantes no contexto da Revolução Francesa, para todos aqueles que na pesquisa solicitada se dispuseram a fazer o Dossiê.

Rei Luiz XVI

Rainha Maria Antonieta

Robespierre

Jean Paul Marat

Georges Jacques Danton

Jacques Hérbert

Honoré Gabriel Riqueti, conde de Mirabeau

Marquês de La Fayette

Napoleão Bonaparte

Giuseppe Guilhotin         

Jacques Louis David

Se eu fosse aluno e fosse fazer o dossiê, escolheria Robespierre ou Marat, mas a escolha é de vocês. Em tempo, no link abaixo tem uma postagem deste blog no qual coloquei o link que conduz ao blog do Professor Maurício Oyuama, amigo meu e que andou viajando pela França há dois anos atrás. O link em questão traz um texto muito bacana sobre o Palácio de Versalhes e várias fotos que ele fez por lá.
http://professor-andre-rockstar.blogspot.com/2011/02/o-palacio-de-versalhes.html
Desde já, um grande abraço para todos.

segunda-feira, 5 de março de 2012

Pensando em educação.

Hoje à tarde, após uma conversa sobre futuros projetos de pesquisa para que eu possa, enfim, retornar à vida acadêmica, eu voltava para casa ouvindo o noticiário da CBN. Liguei o rádio quando a conversa acalorada sobre educação já estava em seu clímax. O entrevistado do programa falava sobre a decisão do Governador Geraldo Alckmin, do Estado de São Paulo, de fazer a terceira chamada em um concurso público para professores do Estado. O que mais deixou o comentador irritado foi o fato de que nesta chamada estavam sendo convocados professores que haviam reprovado no concurso público. E era a segunda chamada com este perfil. Durante a entrevista ele ainda falava que a previsão para 2013 é de uma defasagem de 300 mil educadores no país inteiro.

Outro tema interessante abordado foi o perfil das notas atingidas pelos alunos que querem ingressar na UFPR. Gostaria de ter os dados em mãos para dizer que são de fato fidedignos, mas ficarei devendo. O entrevistado afirmou que a nota de corte para o curso de medicina estava acima de 55 questões das 80 da primeira fase, enquanto que para alguns cursos de licenciatura, que visam formar os educadores, a mesma nota de corte caia para 15 questões.

O que é óbvio de se concluir disso (se isso for verdade), é que os piores alunos do ensino médio vão acabar virando professores. E basta entrar em algumas salas de professores das Escolas Públicas para perceber o quanto tem de "profissional" despreparado cuidando do futuro. Tem gente doente, tem gente de outras áreas, tem pedófilo, tem gente que avalia aluno por cópia de livro e resumo de filme. Um verdadeiro circo de horrores, falta diretriz curricular entre séries na mesma escola, do tipo um professor passando um determinado conteúdo para a sétima série da manhã e outro passando um conteúdo completamente diferente para a turma da tarde, no mesmo dia. Mas a culpa não é unicamente deles. Até as universidades que deveriam ser centros de excelência na formação de educadores não dão a mínima importância para este tema, muito menos aquelas que são verdadeiros consórcios de diplomas, que chegam a demitir um professor com doutorado por que ele custa caro demais para a instituição e por que exigiu que os alunos fizessem a leitura de um livro. (Sim, uma faculdade privada de Curitiba demitiu um amigo meu por que os alunos que seriam educadores no futuro fizeram um abaixo assinado por que ele pediu para lerem Sérgio Buarque de Holanda).

Se os dados que ouvi no rádio forem reais, a previsão para a educação das próximas gerações é no mínimo assustadora. Corremos o risco de ficarmos algumas décadas impedidos de crescer economicamente, materialmente, moralmente em função do descaso que o poder público tem para com a educação. Algum leitor meu consegue imaginar as razões que levaram a este problema?

Se não, vejamos algumas informações. Semana passada o MEC divulgou o valor para o piso salarial nacional dos professores. http://www1.folha.uol.com.br/saber/1054197-mec-divulga-piso-de-r-1451-para-professores-de-ensino-basico.shtml

Por uma carga semanal de 40 horas aula um professor deve receber o mínimo de R$ 1451 por mês. Basta olhar na tabela abaixo para saber o quanto o Estado do Paraná paga para o profissional da Educação Básica.
http://adjcomunicacao.files.wordpress.com/2011/12/tabelas-salariais-magisterio-pr583.jpg

Lecionei para um aluno no ensino público, um dos melhores que já tive e que tem a honrosa profissão de pedreiro. Trabalha por empreitada e sente-se feliz por que ganha aproximadamente R$ 3000 por mês. Ele não precisa preparar provas, aulas, não leva material para corrigir em casa. Não é ameaçado por alunos com alto grau de periculosidade, nem muito menos é coagido por diretores e pedagogos a passar ou reprovar alunos. Ai fica aquela pergunta: Estudar tanto para ganhar dois salários mínimos e levar trabalho para casa?

Enquanto não houver uma valorização real dos ganhos dos educadores, continuaremos ter que trabalhar doentes. Enquanto não houver um crescimento salarial, nossos melhores talentos irão procurar outras profissões que lhes ofereça ascensão social, distanciando-se daquilo que para nós professores é a atividade mais nobre que um ser humano pode executar: melhorar o próximo através do saber – a EDUCAÇÃO.

É óbvio que as forças conservadoras, que atrapalham o progresso da humanidade e aproveitam a Indústria da Ignorância que é o ensino público brasileiro para perpetuarem-se no poder sabe-se lá desde quando vão ficar afirmando coisas ridículas como "se não está satisfeito com o salário, arrume outra profissão".

Infelizmente, isso não é tão fácil assim. Por que diferente de muitas outras profissões, talvez sejam os professores aqueles que mais amam o que fazem. Eles se encantam quando percebem a maturidade que o jovem que eles acompanharam desde a mais tenra idade desabrocha como uma flor cheia de vida. Nós professores nos encantamos ao ver nos olhos de um jovem o nascimento da gana, da vontade de vencer, de ser melhor, de contribuir para com o sucesso da família no futuro. Nós choramos quando nos despedimos de nossos alunos que se formam, não por que o desejássemos por perto a vida toda, mas por que sabemos que plantamos neles sonhos que são difíceis de realizar, e que muitos até podem não conseguir, mas que, de alguma forma, nossas falas deram para eles um pouco de sentido na vida. Diferente de nossos políticos, nós professores sabemos que podemos fazer a diferença na vida das pessoas da sociedade. E acreditem, mesmo dentro das piores condições de trabalho, NÓS FAZEMOS A DIFERENÇA.

Diferente desta elite política que só sabe governar para atender os interesses de seus familiares, amigos, banqueiros, empreiteiros, entre outros.
Quisera eu que meu texto fosse divulgado massivamente, e que meu sonho de ver a educação sendo valorizada se realizasse. Vai ser duro viver a amargura de ser importante, mas ao mesmo tempo deixado de lado, até se aposentar.
Aliás, provavelmente também esquecido ao aposentar. Isso se eu chegar a me aposentar.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Código de Hamurabi

Daê garotada.
Primeiro post do ano letivo, depois dos pedidos de vocês em sala de aula, o link para o código de Hamurábi. Já que gostaram tanto assim do tema, ai vai o site
http://www.dhnet.org.br/direitos/anthist/hamurabi.htm
abraços

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

OPINIÃO - Lançamento do livro "A Privataria Tucana", de Amaury Ribeiro Jr. Em Curitiba.

              
              Eu não consigo nem por sonho ser da direita "clássica", mas a esquerda muitas vezes me irrita. Ontem durante o lançamento do Privataria Tucana em Curitiba dava para contar nos dedos quantos participantes entenderam a seguinte frase "façam perguntas objetivas". A maioria ficava militando em favor de suas próprias causas e de classe. Acredito que esta não era para ser a natureza do evento.

                Pois bem, continuemos. Amaury é um indignado e soube como ninguém tratar os documentos de que dispunha para mostrar que os interesses por trás da privatização não tinham nenhum suporte político e ideológico daquele tipo "o neoliberalismo vai salvar o Brasil". A campanha de desestatização fazia mais parte de um audacioso esquema imoral para promover o enriquecimento de famílias, partidos e corporações através do desmonte do Estado.
                Nos anos 1990, quando isto tudo aconteceu, poucas foram as ações da população que conseguiram parar este processo. Para nós aqui no Paraná, a mais emblemática campanha anti-privatização envolveu a COPEL, mas seria ingênuo demais acreditar que o quebra-quebra no centro cívico (diga-se de passagem, LINDO. Eu lembro disso, estava lá, mas olhando a distância com medo de levar bordoadas da polícia), foi o único responsável pela preservação da empresa pública. 




              A discussão sobre as privatizações ainda não acabaram e muita investigação ainda deve ser feita, mas o que me incomoda é que ela não sai de dentro de núcleos específicos da direita e da esquerda.
                A população em geral está cagando e andando para o tema. Ou por causa de um estupro ou por conta da Luíza, que está no Canadá. Em breve estarão pensando em outras coisas tão fúteis como estas.
                Amaury tenta inflar os ânimos das pessoas incentivando-as a entrar nesta discussão utilizando-se de uma forma clássica na literatura jornalística e política: a acusação. "Estes homens estão roubando de você". É uma maneira de trazer adeptos para a sua crítica às privatizações, mas eu não consigo mensurar a eficiência deste tipo de abordagem. 
                Se a idéia é discutir o tema da privatização, ainda se faz necessário esclarecer a população, sobretudo a mais jovem, a decidir por si só se querem ou não um Estado mais ou menos interventor. Explicar objetivamente o que representam estes modelos de Estados. Sou defensor de um maior intervencionismo estatal, mas não gosto da doutrinação. No exercício da minha profissão de educador, penso que o que é necessário ser feito é a emancipação intelectual dos jovens, para que possam decidir por si só o que acham mais correto como diretriz política. Inclusive, a partir da educação é possível inserir um princípio moral que DEVERIA nortear a prática política. O interesse da POPULAÇÃO, democraticamente representada TEM que estar acima dos interesses individuais ou corporativos. Se vamos privatizar aeroportos, que decidamos em plebiscitos.
                Tanto esquerda quanto direita precisavam, ironicamente, ser mais liberais. Eis a grande contradição. Seus conservadorismos políticos criados a partir de doutrinações corruptoras da liberdade de escolha são em essência, antidemocráticos. Os meios que os dois lados utilizam para tirar a legitimidade do seu antagonista são tão dogmáticos quanto acreditar que um pedaço de pão redondo é o corpo de Cristo. Só há debates entre os dois pólos, na hora que querem e apenas entre eles. Quem não quer se identificar com as cores vermelha ou azul-amarela acaba tendo sua voz sufocada pelos dois lados, que colocam suas ambições e projetos de poder acima da vontade (ou falta de vontade) da população. E quando núcleos dos dois grupos se reúnem o que temos é doutrinação anacrônica e panfletária.
                O lançamento do livro, a meu ver, seria mais útil se as questões fossem sobre a composição do livro, as repercussões, projetos futuros do escritor. Questões como estas apareceram, mas não foram o foco do evento. O autor havia deixado claro na web, semanas atrás, que estava disposto a fazer um livro mostrando as conexões entre a grande mídia e os partidos políticos ligados aos demo-tucanos, desmascarando os veículos de informação. Outra coisa que ele havia pronunciado noutro momento era tornar pública a guerra interna no PT, tema, aliás, que ficou extremamente distante do "debate" do lançamento do livro. Tudo isso poderia ser explorado melhor se não fossem os espíritos doutrinadores assumindo o controle dos microfones.
Eu, em destaque : )

                Se por um lado a presença massiva de uma militância no evento de "perguntas e respostas" me irrita, fico feliz por que ainda existem pessoas aguerridas e dispostas a brigar por um ideal. Se me perguntarem o que penso sobre privatizações pressupondo que sou contra, decepcionar-se-ão. Nem tudo precisa de fato ficar nas mãos do Estado. Mas é necessário sim que outros eventos como este ocorram e que todos tenham uma percepção de qual é o papel do Estado na contemporaneidade. Se ele deve ou não ser interventor. Além disso, as pessoas precisam se articular para cobrar das elites políticas posturas que tenham a ver com o voto e a mente do eleitor. Quanto mais tivermos pessoas convictas de seus ideais, mas dispostas a viver a política fora do ambiente da doutrinação dogmática, abrindo-se para a diversidade da vida política, melhores podem ser os processos que conduzem à criação de um modelo de direção para o Estado. E mais transparentes as coisas podem ficar. Por hora, ainda é necessário fazer uma limpeza e acabar com a corrupção que assola a vida política brasileira.
                E, finalizando, queria tanto enxergar no Amaury um Marat e no Protógenes um Robespierre, mas isso não é possível nem em sonho. Eu queria ter a coragem destes personagens históricos para pedir à população a cabeça de um Maluf, Collor, Sarney.
                Parafraseando as pessoas da mesa do evento de ontem: Para TODOS os COMPANHEIROS e TODAS as COMPANHEIRAS, um grande abraço.

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

mídia e liberdade de expressão

Primeira postagem de 2012
Vale a pena ver este vídeo. Explicação simples e funcional sobre as comunicações no Brasil e as quadrilhas que comandam essa pocilga.

sábado, 31 de dezembro de 2011

Reflexões de fim de ano

2011
               Nunca fiquei tão chateado com as pessoas do meu país como neste ano. Aliás, minto, pois as eleições de 2010 também me fizeram ficar igualmente aborrecido. Há muitos anos um professor meu do DEHIS da UFPR disse uma frase que soava mais ou menos assim: "É uma falácia absurda dizer que o povo e a sociedade brasileira são pacíficos; que os brasileiros são marcadamente cordiais. É ridículo que ainda se negue a violência que existe e sempre existiu nas relações entre os grupos, etnias, religiões, tendências políticas. Este país é um dos mais violentos do mundo. Hoje e ontem".

                Eu me recordo que a discussão acabou indo para um caminho de analisar apenas a violência promovida pelo Estado brasileiro no século XX. E, não precisa ser muito esperto para perceber, para ver na história desta nação que muitas vezes as reivindicações dos extratos mais baixos da sociedade brasileira viraram assunto de polícia. Mas não é da violência do Estado que quero falar, e de certa forma, desabafar.

                Nos últimos anos, com destaque para 2011, vem se manifestando no país inteiro opiniões e argumentos ridiculamente construídos, contra pessoas, regiões, grupos políticos e religiões. Vamos pensar em alguns casos.


                Homofobia:
                Os brasileiros nasceram homofóbicos? Certamente que não. Esta manifestação absurda de preconceito está de certa forma relacionada ao nosso passado cristão, católico. Houve épocas em que a Igreja católica brasileira recriminava veementemente esta questão. O que é mais engraçado é que o homossexualismo feminino era "tolerado" por que não desperdiçava sêmen. A historiadora Mary Del Priore tem alguns bons textos sobre o tema da sexualidade no Brasil.
                Provavelmente por conta desse nosso passado cristão e também pela maioria absoluta da população brasileira seguir esta milenar religião, independente da igreja a qual freqüenta, desenvolvemos o pensamento de que o homossexualismo é um pecado e violenta os preceitos determinados por "Deus" em seu "Livro Sagrado". Lembremos que estamos no campo da análise histórica e não da religião.
                Para mim pouco importa se é pecado ou não. Eu simplesmente não conseguirei nunca identificar-me com uma religião que prega o perdão, o amor ao próximo em absoluto e defende a perseguição e discriminação de uma pessoa por conta da sua opção sexual. Religião e sexualidade não medem caráter. Se nós buscamos um valor moral em absoluto para nortear as ações humanas, não é na religião nem na sexualidade que encontraremos tal padrão. Nos últimos anos tenho assistido uma perseguição intensa e uma recriminação absurda contra esta parcela da população. E acredito que eles tenham sim o direito de se organizarem politicamente para conquistar seus direitos. Embora ainda tenha algumas ressalvas sobre os caminhos que se constroem para a legitimação dos seus direitos, é extremamente justo reivindicá-los.
                E antes de qualquer coisa, sou hétero. Minha preocupação maior hoje em dia é que este debate não está mais sendo realizado no palco da retórica, mas sim, nos ringues que as ruas se tornaram. Eis ai que cai por terra essa idéia de que somos um povo pacífico. Mas não terminou ainda.
                Religiosos VS. Ateus:
                Aqui se manifesta a ignorância mais arrogante de todas. Ambos os segmentos se consideram detentores de um conhecimento maior, superior e pleno que lhes atribui o direito de violentar e desrespeitar a crença (ou falta dela) por parte do outro grupo. Sou religioso, mas confesso que tenho mais facilidade de dialogar com ateus do que com cristãos pessimamente informados acerca da história da religião que professam.
                O que me entristece é o fato de que eu acredito piamente que união de forças para resolver problemas em comum não acontecem por conta deste orgulho mesquinho por parte destas duas forças que se digladiam. De que adianta ter ou não ter fé, se as intervenções necessárias para melhorar as condições de vida das pessoas não são feitas?
                Anos atrás eu soltava críticas ásperas às igrejas neopentecostais, enfatizava o absurdo das "indulgências" que muitas vendem e a ignorância preconceituosa que manifestam contra outras igrejas e formas de fé. Hoje em dia, minhas críticas são contra estas ações, que estão presentes em todas, mas não são mais dirigidas de forma generalizada às pessoas e às instituições. Ano após ano tomo conhecimento de ações tomadas por pessoas simples, sem vínculos com igrejas, apenas conectadas com uma idéia que muito me agrada: caridade.
                Muitos evangélicos e católicos se desprendem de suas funções diárias e doam parte do seu tempo para visitar doentes em estado terminal, penitenciárias, moradores de rua. Muitas escolas ligadas a igrejas ofertam educação de qualidade para quem não tem condições. Pode até alegar-se que eles estão dispostos a forçar uma conversão e eu não negaria esta questão, mas o fato é que, quem mais faz isso? O Estado brasileiro comandado pela elitezinha podre?
                Quanto aos ateus, são uma força intelectual crescente e que também se posicionam a partir de ações afirmativas. O problema é que a única coisa que eu vejo das "ONG's" dos ateus é que utilizam sua "brilhante superioridade intelectual" e o seu tempo livre para agir de forma muitas vezes fascista e desrespeitosa para com um dos fenômenos humanos mais relevantes, que é a religião. Qualquer pessoa que conhece o mínimo de história sabe que a sociedade burguesa ocidental contemporânea, que abriu as portas para o surgimento do ateísmo está associada às reformas religiosas que aconteceram no cristianismo lá no século XVI, no norte da Europa. Se não fossem protestantes religiosos que defenderam pela primeira vez na história do Cristianismo a liberdade de culto e expressão de fé, ideias que são pilares da democracia moderna, onde estariam os ateus? Talvez queimados.
                Se os ateus são tão humanistas quanto pregam, deveriam respeitar a religiosidade e/ou falta dela em qualquer ser humano, e não agredindo seus símbolos e valores. E falo mais, sairiam das redes sociais virtuais e partiriam para a ação social real, levando seu pragmatismo para aqueles que necessitam de alguma perspectiva na vida para sair da condição de miséria moral, intelectual e material que se encontram.
                Política:
                Isso é o que me deixa mais aborrecido e cansado e confesso que muitas vezes me faz perder a minha virtude de ser de fato um pacifista. Tem horas que se manifesta em mim ideias dignas de um Jean Paul Marat: cabeças deveriam ser cortadas.
                Mas vamos aos fatos. O que mais observei neste ano na política brasileira nem foi aquilo que mais me chama a atenção, que são os assuntos econômicos. Parafraseando Lula, nunca antes na história deste país vi tantas denúncias de corrupção. A impressão que me passa é que a corrupção foi inventada agora. Onde estava a grande imprensa delatora nos anos de 1990-2002?
                Sujeira das mais baixas. O que a oposição e a imprensa ligada a ela fazem é hediondo. Denunciar apenas agora é o suficiente para eu entender que a corrupção existente anteriormente acontecia com a conivência dos meios de comunicação associados ao PSDB e (PFL) DEM. E nesta história toda, palmas para Dilma.
                Primeiro por que não se conseguiu levantar nada contra ela. Não vou ser maluco de dizer que ela não fez nada de errado na vida política, mas nenhuma acusação contra ela aconteceu e creio que vai ser difícil que aconteça. Segundo por que ela não pensou duas vezes nas situações em que teve que forçar a renúncia ou até mesmo mandar embora secretários e ministros. Será que Serra, FHC, Maluf, Magalhães da vida fariam o mesmo?
                Do outro lado, o PT que durante anos me fez crer que era possível ter esperança na política esfriou muito meu idealismo quando notei que muita gente da cúpula do partido estava e está mais suja que pau de galinheiro. O mensalão ainda não me desce, bem como o "não sei de nada" do Lula.
                Mas, vamos ao que mais me irrita. Os demo-tucanos não estão denunciando corrupção por que se opõem a ela. Daqui da minha cadeira no quarto eu observo que quando eles saíram do poder, perderam a galinha dos ovos de ouro. O Estado, que até então era cliente especial das empresas dos amigos e familiares desta corja podre da política brasileira, esteve desde 2002 nas mãos do "inimigo". Quem vai na onda da Veja, da Folha, acreditando que se trata de uma luta por moralizar a política brasileira está ridiculamente equivocado.
                E quem é que mais perde enquanto estas elites políticas vinculadas ao poder econômico se digladiam na arena da política? Nós todos que ainda temos um dos mais baixos IDH do mundo, temos milhões na pobreza, na violência urbana, na prostituição infantil, na educação de baixa qualidade, na dependência tecnológica dos grandes países, na péssima distribuição de renda, na péssima saúde, na ridícula mobilidade urbana, na escandalosa e cruel violência contra o meio ambiente.
                A violência que estas elites políticas podres do nosso país praticam entre si, acaba virando saraivadas de balas perdidas em 190 milhões de brasileiros.
                E você que leu este texto, ainda acredita que somos um país com povo pacífico?

                Feliz ano novo.
OBS: No próximo post pretendo falar sobre a intolerância regional.